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Vítor Belanciano
Jornalista

 

Algumas das cidades mais estimulantes do nosso tempo são aquelas que conseguem ser culturalmente significativas, capazes de integrar a diferença e de expressar também aquelas que são as suas singularidades. Lisboa é a cidade do Sul da Europa, com o Atlântico à porta, que possui ligações mais privilegiadas com o Brasil ou com África.

Durante anos Portugal pareceu dividido entre optar por privilegiar o espaço europeu ou a relação e herança com os países de expressão portuguesa. Depois foi percebendo que não tem que excluir mas sim que aglutinar de forma criativa, sendo mais capaz de gerar riqueza a todos os níveis – e ser nessa dinâmica, tanto mais europeu e do mundo – quanto mais transatlântico for e quanto mais afinidades conseguir alimentar com esses e outros territórios.

Na atualidade, olhando à volta, para a paisagem física e humana, percebe-se que é aí que reside uma das razões da sua peculiaridade. Lisboa já é feita de língua portuguesa mas também do crioulo, do fado mas também do kuduro, das dinâmicas locais mas também das referências europeias e globais que aqui afluem, enriquecendo-se com as diferenças, as linguagens, os imaginários e novas experiências.

Durante muitos anos o cosmopolitismo de Lisboa parecia remediado. Mais desejo do que outra coisa. Hoje é uma realidade, reflexo de uma cidade que foi sendo capaz de criar pontes em vários sentidos.

Um fluxo que não pode ser apenas de Lisboa para o exterior e vice-versa, mas também no seu interior. A cidade é um organismo vivo que está sempre em reconstrução, nesse sentido é também a partir de dentro que Lisboa pode criar pontes, entre centro e periferias, por exemplo, nesse movimento redefinindo-se a si própria e a alguns dos municípios que a rodeiam, como o Barreiro, o Seixal, Almada, Alcochete, Amadora ou Loures.

Lisboa já é essa Grande Lisboa. Mas é como se existisse ainda um obstáculo anímico, em grande parte provocado pela presença do rio, que nos leva a olhar para alguns desses municípios, principalmente na margem sul e apesar das duas pontes, como se fossem pequenas ilhas isoladas.

Um dos grandes desafios de Lisboa pode passar por olhar para todo esse anel, em torno do rio, como sendo o  seu centro. Ou seja, vislumbrar a área metropolitana de Lisboa como uma unidade de congregação urbana, com o rio como o seu centro. A mobilidade como centro, num movimento de rotação que exigiria um desafio psicológico: olhar o rio não como limite, mas como potencial de ligação.

No fim de contas essa ponte já existe. É humana e cultural. Mas falta estimulá-la, potenciando as caraterísticas únicas desse território Sul de Lisboa (entre o industrial e o urbano, com espaços inexplorados e hipóteses de reconversão), enriquecendo a metrópole de possibilidades, criando outras rotas, fomentando o desejo de conhecer e atravessar o rio em todas as direções.

Curiosamente, nos últimos dez anos, se existiu um projeto artístico que parece ter reflectido e até antecipado muitas destas dinâmicas entre local e global, centro e periferia, atravessando todos os oceanos, e tornando-se ao mesmo tempo emblema de Lisboa, foi o grupo musical Buraka Som Sistema.

É como se a sua música e o seu posicionamento fosse simultaneamente essa remontagem de vários localismos – de Luanda, de Londres ou do Rio de Janeiro – que adquirem em Lisboa o seu significado pleno, para se afirmar como linguagem globalizada.

Ao mesmo tempo constituem a prova que é cada vez mais difícil definir o que é verdadeiramente centro e periferia, de tal forma se alimentam mutuamente, tendo sido capazes de legitimar novas experiências no quadro do Portugal pós-colonial, contribuindo para alguns processos de metamorfose social.

Há dez anos essa Lisboa que se estende da Buraca ao Chiado, capaz de se conectar com o mundo, já existia, mas os Buraka deram-lhe novos sentidos. Hoje todas essas pontes estão aí. Umas estão consolidadas. Outras precisam de ser activadas, para uma realidade ainda mais plural e enriquecedora.

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